Neste artigo:
Contexto
A visão envelhece junto com o corpo
Depois dos 60 anos, o olho humano passa por mudanças estruturais que não dependem de genética ruim nem de descuido. São transformações graduais, parte do envelhecimento normal — mas que, sem acompanhamento, podem escalar para perda visual severa ou até cegueira.
O cristalino, estrutura que foca a luz dentro do olho, vai perdendo transparência com o tempo. Esse processo é a catarata. Já o glaucoma é diferente: não afeta o cristalino, mas ataca o nervo óptico, geralmente por conta do aumento da pressão intraocular. São doenças distintas, com mecanismos distintos, mas compartilham uma característica perigosa — evoluem em silêncio.
Segundo dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), a catarata é responsável por cerca de 50% dos casos de cegueira evitável no país. O glaucoma, por sua vez, já afeta mais de 1 milhão de brasileiros, e a maioria desconhece o diagnóstico. Esses números ganham peso quando se lembra que a perda de visão está diretamente associada a quedas, isolamento social e piora da qualidade de vida em pessoas idosas.
A boa notícia é que ambas as condições têm tratamento eficaz — desde que detectadas a tempo.
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Diagnóstico Rápido
Por que idosos são mais vulneráveis
O envelhecimento ocular é inevitável, mas alguns fatores aceleram ou agravam o processo. Entender o que está por trás dessas doenças ajuda a monitorar os riscos com mais atenção.
Catarata: o cristalino que perde clareza
O cristalino é formado principalmente por proteínas organizadas de forma precisa para manter a transparência. Com o passar dos anos, essas proteínas se degradam e se agrupam em grumos, criando opacidades. A lente fica turva, como olhar através de um vidro embaçado.
Além da idade, os fatores que aceleram a catarata incluem:
- Exposição cumulativa à radiação ultravioleta (sol sem proteção)
- Diabetes mellitus mal controlado
- Uso prolongado de corticosteroides
- Tabagismo
- Histórico familiar
Glaucoma: pressão que destrói o nervo
O olho produz constantemente um líquido chamado humor aquoso, que circula e drena de forma contínua. Quando esse sistema de drenagem falha — seja por bloqueio, seja por produção excessiva — a pressão intraocular sobe. Pressão elevada comprime e danifica progressivamente o nervo óptico, responsável por transmitir as imagens ao cérebro.
O problema é que o campo visual periférico vai sendo consumido primeiro, e o cérebro compensa essa perda por um tempo. Quando a pessoa percebe algo errado, o dano já é significativo. Fatores de risco incluem:
- Pressão intraocular elevada (acima de 21 mmHg)
- Histórico familiar de glaucoma
- Ascendência africana ou afro-brasileira (risco até quatro vezes maior)
- Miopia elevada
- Uso de colírios à base de corticoide sem supervisão
- Doenças vasculares como hipertensão e diabetes
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Sinais de alerta que não devem ser ignorados
Nem sempre a doença avisa. Mas quando avisa, é importante reconhecer. Fique atento a esses sinais — em você ou em um familiar idoso:
Possíveis sinais de catarata:
- Visão embaçada ou turva, como se houvesse névoa constante
- Sensibilidade aumentada à luz e reflexos de faróis à noite
- Dificuldade para ler ou enxergar detalhes finos
- Cores que parecem mais amareladas ou desbotadas
- Dupla visão em um dos olhos
Possíveis sinais de glaucoma:
- Perda de visão lateral (periférica) — sutil no início
- Halos coloridos ao redor de fontes de luz
- Dor ocular intensa e súbita (característico do glaucoma agudo)
- Visão embaçada com náusea (no caso do glaucoma de ângulo fechado)
- Dificuldade para enxergar em ambientes com pouca luz
Atenção: a ausência de sintomas não significa ausência de doença. O glaucoma crônico, o tipo mais comum, raramente causa dor. A perda visual acontece de forma tão gradual que passa despercebida por anos.
Passo a passo
Exames recomendados após os 60 anos
A prevenção de glaucoma e catarata na velhice passa, antes de tudo, por uma consulta oftalmológica completa — não apenas a medição do grau para óculos. Há uma diferença grande entre a consulta em uma ótica e um exame oftalmológico realizado por médico especialista.
Frequência recomendada
Para pessoas acima de 60 anos sem fatores de risco específicos, o CBO recomenda pelo menos uma consulta oftalmológica anual. Para quem tem histórico familiar de glaucoma, diabetes ou pressão intraocular limítrofe, a frequência pode ser semestral, conforme orientação do médico.
O que deve ser avaliado na consulta completa:
- Acuidade visual — o teste básico de leitura de letras em distâncias diferentes
- Tonometria — medição da pressão intraocular; é o exame central para rastreio do glaucoma. Valores normais ficam abaixo de 21 mmHg
- Biomicroscopia (lâmpada de fenda) — exame da parte anterior do olho, incluindo o cristalino; detecta opacidades iniciais da catarata
- Fundoscopia (mapeamento de retina) — avaliação do nervo óptico e da retina com dilatação da pupila; fundamental para identificar danos iniciais do glaucoma
- Campimetria computadorizada (campo visual) — mapeia a visão periférica; exame indispensável para monitorar o glaucoma
- Paquimetria — mede a espessura da córnea, dado que influencia a interpretação da pressão intraocular
- OCT (Tomografia de Coerência Óptica) — tecnologia que avalia a espessura das fibras do nervo óptico com alta precisão; disponível em clínicas especializadas e cada vez mais acessível pelo plano de saúde
No SUS, é possível?
Sim, ainda que com variação conforme o município. A tonometria e a fundoscopia estão disponíveis em muitas unidades básicas de saúde e ambulatórios de oftalmologia do SUS. O encaminhamento pode ser feito pelo clínico geral ou geriatra. Quem tem plano de saúde normalmente tem cobertura para a maioria desses procedimentos — vale confirmar com a operadora.
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Quem precisa ter atenção redobrada
Embora qualquer pessoa acima de 60 anos deva fazer acompanhamento regular, alguns perfis exigem monitoramento mais frequente e detalhado.
Prioridade máxima para avaliação oftalmológica:
- Pessoas com diabetes tipo 2 — a retinopatia diabética é a principal causa de cegueira em adultos em idade produtiva, mas também afeta gravemente idosos; além disso, o diabetes acelera a formação de catarata
- Quem tem familiar de primeiro grau com glaucoma (pais, irmãos) — o risco aumenta em até quatro vezes
- Pessoas com hipertensão arterial não controlada, que pode comprometer a circulação ocular
- Quem já usa colírios com corticosteroides sem prescrição — prática comum para tratar irritações oculares, mas que eleva a pressão intraocular com uso contínuo
- Pessoas que trabalham ou trabalharam em ambientes com exposição intensa à luz solar sem proteção (agricultores, pescadores, trabalhadores de construção)
- Idosos com histórico de trauma ocular ou cirurgias oculares anteriores
Para esse grupo, a consulta anual pode não ser suficiente. O oftalmologista é quem define a periodicidade ideal com base no perfil individual.
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Quando ir ao médico sem esperar a consulta agendada
Alguns sintomas oculares exigem atendimento imediato — não no próximo agendamento disponível, mas no pronto-socorro ou pronto-atendimento oftalmológico.
Procure atendimento urgente se houver:
- Dor ocular intensa e súbita, especialmente acompanhada de náusea, vômito e visão embaçada — pode ser glaucoma agudo de ângulo fechado, uma emergência oftalmológica que pode causar cegueira em horas se não tratada
- Perda repentina de visão em um ou ambos os olhos, mesmo que parcial e passageira
- Aparecimento súbito de flashes de luz ou grande quantidade de moscas volantes (pontos ou fios escuros no campo visual) — pode indicar descolamento de retina
- Olho vermelho intenso com visão turva sem causa aparente
- Trauma ocular de qualquer tipo
Esses quadros não têm nada de banal. O tempo entre o sintoma e o atendimento pode definir se a visão será preservada ou não.
Tire suas dúvidas
Catarata tem como prevenir ou só tem tratamento cirúrgico?+
A formação da catarata relacionada à idade não tem como ser completamente evitada, mas é possível retardar sua progressão. Usar óculos de sol com bloqueio UV, controlar o diabetes, não fumar e evitar corticosteroides sem orientação médica são medidas que fazem diferença. Quando a catarata já está formada e afeta a qualidade de vida, o tratamento é cirúrgico — um procedimento rápido, com alta taxa de sucesso, chamado facoemulsificação. Colírios ou óculos não revertem a opacidade do cristalino.
Glaucoma tem cura? Precisa usar colírio para sempre?+
O glaucoma não tem cura, mas tem controle muito eficaz. O dano já causado ao nervo óptico é irreversível, mas é possível estabilizar a doença completamente e preservar a visão restante. O tratamento mais comum começa com colírios que reduzem a pressão intraocular, usados diariamente. Em casos que não respondem bem ao colírio, existem opções de laser (trabeculoplastia) e cirurgia (trabeculectomia). O uso contínuo do colírio é sim, na maioria dos casos, permanente — mas evita a progressão da perda visual.
O exame de tonometria — aquele sopro de ar no olho — é suficiente para diagnosticar glaucoma?+
Não. A tonometria mede a pressão intraocular, que é um fator de risco importante, mas não o único. Existem pessoas com pressão normal que desenvolvem glaucoma (glaucoma de pressão normal) e pessoas com pressão elevada que nunca desenvolvem a doença. O diagnóstico preciso exige a combinação de tonometria, avaliação do nervo óptico (fundoscopia), campimetria e, idealmente, OCT. Por isso uma consulta oftalmológica completa é muito mais informativa do que apenas medir a pressão.
A partir de que idade o rastreio para glaucoma e catarata deve começar?+
Para a população geral, o rastreio oftalmológico regular é recomendado a partir dos 40 anos, com frequência que varia conforme os fatores de risco. Depois dos 60 anos, a recomendação é de pelo menos uma consulta completa por ano. Para quem tem histórico familiar de glaucoma, a triagem deve começar antes — alguns especialistas recomendam a partir dos 35 anos para esse grupo.
Idoso que mora sozinho e enxerga mal tem mais risco de queda?+
Sim, e esse é um dos argumentos mais práticos para levar a saúde ocular a sério. Estudos associam déficit visual não corrigido em idosos ao aumento significativo do risco de quedas e fraturas — especialmente fratura de quadril, que tem mortalidade elevada nessa faixa etária. A visão embaçada prejudica a percepção de profundidade, dificulta a identificação de obstáculos e reduz o tempo de reação. Tratar a catarata ou ajustar a correção óptica pode, literalmente, salvar a vida de um idoso.
Ciência
- Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). Diretrizes para prevenção da cegueira e deficiência visual. Disponível em: https://www.cbo.net.br
- Ministério da Saúde. Saúde ocular no Brasil: dados epidemiológicos e políticas públicas. Disponível em: https://www.saude.gov.br
- Weinreb RN, Aung T, Medeiros FA. The pathophysiology and treatment of glaucoma: a review. JAMA. 2014;311(18):1901-1911.
- Pascolini D, Mariotti SP. Global estimates of visual impairment: 2010. British Journal of Ophthalmology. 2012;96(5):614-618.
- Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO). Guia de condutas em glaucoma. Disponível em: https://www.sboportal.org.br
Guia Prático
Vídeo recomendado
Para complementar, veja este vídeo: Sim, é verdade! Mesmo depois da cirurgia de catarata, você pode ter mais dificuldade para enxergar d

